D.A.M.N Project

Quem nunca olhou para o guarda-roupa cheio e pensou, por quê? Foi esse questionamento que levou Camilla Marinho a reunir os desapegos dela e de amigas para um bazar. E o que começou despretensiosamente acabou se ampliando para um selo de consumo consciente e uma rede de incentivo que ajuda marcas independentes a ganharem mais espaço no disputado mercado de moda.

Fundado pela publicitária Camilla Marinho e a modelo Marina Theiss, o D.A.M.N Project, abreviação para Design, Arte, Moda e Neon, surgiu com a missão de “incentivar as pessoas a colocarem de volta no mercado suas peças em desuso”, consumindo de forma mais justa, inteligente e consciente.

Há mais ou menos 3 anos o projeto começou com um formato itinerante, mas deu tão certo que hoje ocupa um endereço fixo em São Paulo. Aqui, Camilla (que atualmente toca o projeto sozinha depois da saída de Marina, que mora em Nova York) nos conta um pouco mais sobre o D.A.M.N. e sua bandeira contra o desperdício.

damn project camilla marinho marina theiss

Hype: Como o D.A.M.N Project começou?

Camilla: Eu sempre trabalhei com moda e sempre tive muitas roupas, era uma consumista nata, queria tudo e me endividava para comprar as coisas que eu queria. Passei por um momento de reflexão e comecei a perceber que eu não precisava daquilo, que estava consumindo a troco de nada. Comecei a repensar se aquele consumo era saudável e passei a buscar alternativas para dar um jeito no meu guarda-roupa e nesse consumo desenfreado. Como sempre tive muito contato com a galera da moda e coincidentemente a maioria das minhas amigas trabalhava com moda, pensei em fazer um bazar para desapegar da minhas coisas e convidei algumas delas para participarem comigo, e foi assim que nasceu o D.A.M.N..

H: Vocês trabalham com um conceito bem bacana, os Top Closets. Como isso funciona?

C: A gente fez a primeira edição e na época a Marina ainda não era minha sócia, mas como ela é modelo, sempre teve bastante contato com meninas da moda, modelos e atrizes, e eu sempre fui engajada com projetos sociais desde pequena. Ela sugeriu que a gente convidasse umas meninas famosas para compartilharem peças do closet delas e nós doaríamos para algum projeto social. Participaram da primeira edição Thaila Ayala, Julia Faria, Cintia Dicker, Alinne Moraes e todas acharam legal a ideia de recolocar no mercado as peças que estavam sem uso no guarda-roupa – a gente sempre teve isso em mente, se ela não serve para você, pode servir para outra pessoa. Elas adoraram o conceito de Top Closets, apoiaram o projeto e isso deu mais visibilidade para a gente. Logo na primeira edição vários veículos nos apoiaram por conta desse engajamento social que na época, há 3 anos, pouca gente discutia na moda.

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H: Além de vender peças usadas aumentando o ciclo de vida desses produtos, como vocês transmitem essa conscientização para os clientes?

C: Antes a gente fazia bazares itinerantes, hoje temos o nosso espaço, então o D.A.M.N. se tornou nesses 3 anos um movimento, um selo de consumo consciente, não só da moda, porque tentamos alertar as pessoas sobre vários aspectos, tanto no lixo que você consome, no carro que você usa, no estilo de vida. Começamos fazendo esses bazares e ao longo do tempo percebemos que tinham muitos projetos e muitas iniciativas legais que não tinham força no mercado da moda tradicional e o D.A.M.N. sempre teve esse visibilidade. Eu e a Marina entendemos que estava no momento de termos nosso espaço para refletir tudo o que foi o D.A.M.N., um projeto muito colaborativo que sempre recebeu ajuda de pessoas que acreditaram nele. Eu acredito muito nessa moeda de troca que não envolve dinheiro, acho que quanto mais gente falando, quanto mais gente apoiando essa ideia, melhor para todo mundo, porque ninguém aguenta mais esse mercado frenético da moda, de excesso consumo, acho que o planeta não dispõe mais dos recursos de antes, não tem mais como a gente pensar como nossos avós pensavam, é um assunto de extrema importância, as pessoas precisam falar disso.

“Não sou contra o consumo, sou a favor do consumo consciente. Muita gente não sabe o que se passa por trás da cadeia produtiva da moda, acho que é um assunto sobre o qual temos que falar e a ideia do espaço é essa.”

Os bazares não deixaram de existir, mas parei de trabalhar com a questão do desapego. Hoje estou focada no vintage, que trago de viagens, são peças supernovas, as pessoas acham que é velho, mas o objetivo do vintage é buscar no passado soluções para o presente. São peças que estão prontas e não vão impactar mais, além de ser exclusivo. A gente acredita na expressão de cada indivíduo e com o vintage conseguimos abraçar isso.

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H: E como é feita a seleção de novos designers apoiados pelo projeto?

C: Tenho um coletivo de marcas, com peças novas, que estão envolvidas com sustentabilidade e presto consultoria para essas marcas, eu mesma cuido da comunicação, produção de conteúdo para Instagram, encaminho a coleção para stylists e também para o mercado, são marcas que as pessoas não conheciam e começaram a conhecer por conta do D.A.M.N.. Hoje o projeto é um selo que apoia iniciativas sustentáveis e quer colaborar da melhor forma possível com todos os parceiros e marcas que estão envolvidos com a gente.

H: Você acredita que consumo consciente é uma tendência passageira ou é uma mudança de comportamento que reflete os nossos tempos e que veio para ficar?

C: Não acredito que isso seja uma tendência, a gente precisa falar de inclusão social, a gente precisa falar das pessoas da periferia, a gente precisa incluir os negros nos nossos projetos, porque as pessoas falam de preconceito, mas precisamos trabalhar essa questão da inclusão social, trazer essas pessoas para a nossa realidade, dar uma oportunidade. Pequenas atitudes podem mudar o meio em que a gente vive, não podemos deixar nas mãos das grandes empresas, a gente tem que fazer dentro da nossa casa. E podemos mostrar que com a moda a gente consegue fazer isso, já que a moda é um meio muito forte de informação, uma potência muito grande, ela também pode servir para realizar mudanças. Moda não é fútil, a gente só precisa saber usá-la a favor da sociedade, do meio ambiente e da economia.

H: Quem você adoraria ter entre as musas que abriram os closets para o D.A.M.N?

C: As pessoas acham que sou maluca, mas ainda quero a Gisele Bündchen envolvida de alguma maneira no D.A.M.N, ela é uma pessoa superengajada e eu acho que ela conversa muito com esse momento que a gente está passando.

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H: O D.A.M.N começou como um projeto itinerante e hoje já tem endereço fixo. Qual é o próximo passo?

C: O próximo passo é concretizar tudo o que a gente pretende, ainda tem muita coisa para se falar, muito projeto ainda para ser desenvolvido. Estamos com alguns em andamento para este ano, um deles é um projeto na Amazônia com a Soul Kitchen e a Index.

Fotos: reprodução/DAMN Project

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