#HypeThinking – Zé Nosso de Cada Dia

Voltando com Mari Pedroso a frente do nosso #HypeThinking – mais uma reflexão maravilhosa!

Let’s read it!

Zé nosso de cada dia

Tem horas que internet cansa. Dia de clássico de futebol, chegada de frente fria depois de messes de calor da Namíbia, estreia de temporada de GoT. A timeline vira monotemática, repetitiva, chata. Mas toda moeda tem dois lados e, por esse mesmo aspecto, tem horas que a internet é maravilhosa também.

Caso da fatídica situação entre Zé Mayer e Su Tonani, que veio à tona semana passada com a denúncia de assédio sexual feita pela figurinista contra o ator. Se você entrou em um mundo paralelo desde sexta-feira e não ouviu nada sobre isso, com certeza ficou sabendo ontem, com a sua timeline infestada pela hashtag #mexeucomumamexeucomtodas e pelo repost da imagem abaixo, da ação que começou com as próprias funcionárias e atrizes da Rede Globo.

E no meio disso tudo, precisamos mesmo falar sobre algumas reações desse caso. Começando pela do dito cujo.

Vamos ignorar a carta aberta que mais parece um ghost-writing-pós-pressão-pública e focar na primeira resposta que ouvimos diretamente do Zé: um belo “mas não fui eu, foi Tião Bezerra”.

*PAUSA PARA RESPIRAR FUNDO*

Recapitulando. O que o Zé quis dizer? Que o assédio foi fictício. E é bem por aí, só que ao contrário. Tião Bezerra é que é um personagem real, de carne e osso. Ele está entre nós. Sempre esteve. A cada vez que um homem aponta o dedo na cara de uma mulher e grita para intimidar. A cada hora que ele pensa que não tem que lavar louça ou esfregar o chão porque esse é o dever da mulher. A cada justificativa de traição ou da objetificação do corpo de uma mulher em favor das “necessidades sexuais que só o homem tem”. Porque sim, é isso mesmo – nós precisamos nos cobrir em plenos 40oC e evitar a saia curta para não confundir o homem ou atiçar o seu desejo sexual. Se não somos belas, recatadas e do lar, não prestamos nem somos feitas para casar. Transar? Imagina, mulher só faz amor. Mulher é sentimental, chora por tudo, tem tpm, é louca. Gente, ISSO é que é fictício. A peça de teatro mais velha do mundo, com séculos de idade. E se tem alguém que a dirige… é você mesmo, Zé. Ou Tião Bezerra. Whatever – por que é que a desculpa do mandante importa mais do que o próprio crime mesmo?

A segunda reação que precisamos falar sobre vem delas, as mulheres machistas (tem coisa mais triste que isso?). Vi um número assustador delas começando frases com “não estou apoiando ele, MAS…” e terminando com variações de “ele tem direito de se defender” ou “a figurinista o acusou de um crime sem ter provas, isso é absurdo”. Gente. GEN-TE.

Primeiro, ninguém está tirando dele o direito de se defender. Ele que fique à vontade para tal (alô, desculpa do Tião Bezerra, alô, carta aberta). Mas isso não o exime do que já foi feito e não tira o NOSSO direito de sentir revolta, de reivindicar por melhores condições de existência no trabalho, na rua, em festas, onde quer que seja. O movimento do #mexeucomumamexeucomtodas não é só um grito na cara do Zé, mas da própria indústria, do mercado de trabalho e da sociedade que coloca a mulher em uma posição de objeto. É a gente reagindo e tentando dizer que NÃO, você não pode colocar a mão na minha ~flor~ SEM PERMISSÃO só porque está interpretando um personagem ou porque me achou bonita. NÃO, você não pode achar que é justificável invadir o meu espaço só porque é homem e tem “desejos carnais”, não pode achar que meu corpo está aqui apenas ao seu dispor. E, finalmente, NÃO pode achar que isso é um comportamento normal e banal. NÃO ESTÁ TUDO BEM!

Segundo, sobre as provas que deveriam existir para comprovar o crime: queriam o quê, que ela tirasse uma selfie enquanto ele assediava ela? Não basta as outras denúncias que seguiram a de Su Tononi, feitas por mais mulheres assediadas em local de trabalho pelo Zé? É preciso que UM homem, o acusado, assuma ter feito o crime para que possamos acreditar em um plural de mulheres que são as vítimas dele? Lembrando ainda a pressão e o risco que elas colocaram em suas próprias carreiras para expor um ator rico, branco e patrimônio de uma das maiores empresas do país – btw, onde também há outros homens ocupando cargos altos com poder de decisão sobre a rotina de trabalho delas? E o medo? E a represália? E a possibilidade de ser intimidada/ameaçada pelo acusado no dia seguinte?

O que está em jogo aqui é que, de forma inédita, um Zé foi encurralado e exposto no próprio sistema que o protegia – tudo por causa da força que surgiu com a união de várias mulheres em favor de uma. Tudo porque funcionárias, atrizes e jornalistas tiveram empatia, tomaram as dores e ajudaram a projetar o apelo de Su para que mais pessoas ouvissem.

Aliás, em uma maré de Zés e de Tiões que insistem que não passamos de um corpo com uma cabeça devidamente abaixada, é uma vitória saber que nossa voz pode ser ouvida em vez de silenciada. Que eles não passarão mais. Que, sim, estamos juntas nessa – porque se mexer com uma, vai mexer com todas. E isso pode mudar tudo.

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